Capa

A Pinha
que Era uma Árvore

Uma aventura do Doc e do Marty, em nove capítulos

A garagem do Doc ao fim da tarde, com o pinheiro enorme ao lado.

Capítulo Um

A Garagem do Doc

Na rua onde o Marty vivia havia uma garagem que fazia barulhos.

Não eram barulhos normais de garagem, daqueles de martelo e de aparafusar. Eram barulhos esquisitos: plim, plim, ZUM, bzzzzzzzt, ai!, plim.

Dentro daquela garagem vivia o Doc.

O Doc, muito alto, de bata branca e cabelo branco em pé.

O Doc era um senhor muito alto, com o cabelo branco todo em pé, como se tivesse levado um susto em 1974 e nunca mais tivesse assentado. Usava uma bata branca cheia de bolsos, e em cada bolso havia qualquer coisa: uma chave de fendas, um relógio partido, meia sandes de queijo, um íman, outro relógio partido.

O Doc tinha dezassete relógios pendurados na parede.

Dezassete.

E — isto é o mais estranho de tudo — cada um marcava uma hora diferente.

Dezassete relógios na parede, cada um com uma hora diferente.

— Doc — perguntou o Marty, no primeiro dia em que lá entrou —, porque é que os teus relógios estão todos errados?

O Doc levantou os olhos por cima dos óculos e sorriu de uma maneira que queria dizer ah, ainda bem que perguntaste.

— Não estão errados, Marty. Estão adiantados.

— Todos?

— Todos. Uns mais do que outros.

E foi assim que começou.

Ah, e ainda havia o Einstein.

O Einstein deitado em cima dos esquemas, na bancada.

O Einstein era o cão do Doc. Um cão peludo, cor de torrada, com uma orelha levantada e outra caída, que dormia sempre em cima do sítio onde o Doc estava a trabalhar. Sempre. Se o Doc estava a soldar um fio na bancada, o Einstein deitava-se em cima do fio. Se o Doc abria um esquema em cima da mesa, o Einstein deitava-se em cima do esquema.

Era o trabalho dele.

O Doc e o Marty no chão da garagem, com a estrada dos dias desenhada a giz.

Capítulo Dois

O que É o Tempo

Uma tarde, o Marty entrou na garagem e encontrou o Doc sentado no chão, a olhar para o tapete.

— Estás bem, Doc?

— Estou a pensar no tempo — disse o Doc, sem tirar os olhos do tapete. — Senta-te. Preciso de te explicar uma coisa e preciso que percebas mesmo.

O Marty sentou-se no chão. O Einstein sentou-se em cima do Marty.

— Marty. Quantos anos tens?

— Cinco.

— Muito bem. E ontem?

— Cinco também.

— E amanhã?

— Cinco, Doc.

— Exatamente. — O Doc bateu com a mão no chão, contente. — E é isso que quase ninguém repara. Tu andas. Todos os dias tu andas.

— Eu ando?

O Doc pegou num pedaço de giz e desenhou no chão da garagem uma linha comprida, comprida, que ia da porta até à bancada.

— Isto é uma estrada. É a estrada dos dias.

E fez traços na linha, um a seguir ao outro, como as tábuas de uma passadeira.

— Cada tracinho é um dia. Este é ontem. Este é hoje. Este é amanhã. E tu vais em cima dela, sempre a andar, sem nunca parares. Mesmo quando estás sentado. Mesmo quando estás a dormir. Vais sempre para a frente, um dia de cada vez.

O Marty olhou para os pés como se fosse ver a estrada por baixo deles.

— E não posso andar mais depressa?

— Não.

— E mais devagar?

— Também não.

— E para trás?

O Doc levantou a cabeça devagarinho.

E sorriu.

O lençol a cair e o carro prateado com as portas abertas para cima.

Capítulo Três

A Coisa Debaixo do Lençol

Ao fundo da garagem havia uma coisa grande tapada com um lençol.

O Marty já tinha reparado nela mil vezes. Um dia perguntou o que era e o Doc respondeu "é uma prenda", e depois nunca mais falou nisso, e o Marty passou seis meses a pensar nisso todas as noites, que é uma coisa muito injusta de se fazer a uma pessoa.

Naquela tarde, o Doc levantou-se, foi até ao lençol e agarrou-o com as duas mãos.

— Marty. Tambores.

— Não tenho tambores, Doc.

— Faz com a boca.

O Marty fez brrrrrrrrrrr com a boca e o Doc puxou o lençol.

Por baixo estava um carro.

Mas não era um carro normal. Era prateado como uma colher, baixinho como um gato a espreitar, e tinha portas que não abriam para o lado — abriam para cima, como duas asas.

E, no meio do tabliê, havia uma caixinha com três janelas e três rodinhas por baixo. Em cada janela havia números.

A caixinha do tempo: três janelas de números e três rodinhas.

— Isto — disse o Doc, com a voz a tremer um bocadinho — é uma máquina do tempo.

O Marty ficou de boca aberta.

— Uma quê?

— Lembras-te da estrada dos dias? Toda a gente anda em cima dela e ninguém consegue sair. — O Doc pousou a mão no capô. — Esta máquina sai.

— Sai para onde?

— Para outro dia.

O Marty aproximou-se da caixinha das três janelas.

— E estes números?

— A primeira janela é o dia. A segunda é o mês. A terceira é o ano. — O Doc rodou uma rodinha e os números mudaram, clic, clic, clic. — Escolhes um dia. Carregas no botão. E a máquina salta da estrada e aterra lá.

— Salta.

— Salta.

O Einstein ladrou uma vez, como quem diz eu já sabia.

A fila de dominós a atravessar a garagem, à volta do cão.

Capítulo Quatro

As Três Regras

Antes de entrarem, o Doc pôs-se muito direito e muito sério.

— Marty. Regras. Três. Decora-as.

— Está bem.

Regra número um: nunca sais do meu lado.

— Fácil.

Regra número dois: não dizes a ninguém de onde vieste. As pessoas do passado não sabem que existe uma máquina do tempo, e é melhor assim, porque senão iam querer todas andar nela e não há lugares suficientes.

— Está bem.

E regra número três — e aqui o Doc ajoelhou-se para ficar da altura do Marty, e disse muito devagar, uma palavra de cada vez:

O Doc ajoelhado à altura do Marty, com a mão no ombro dele.

No passado, olha-se com os olhos. Nunca com as mãos.

O Marty franziu o nariz.

— Isso quer dizer o quê?

— Quer dizer que podes ver tudo. Podes cheirar tudo. Podes até chorar a rir, se te apetecer. Mas não trazes nada. Não mexes em nada. Não tiras nada do sítio. Nem uma pedrinha. Nem um botão. Nem uma folha do chão.

— Porquê?

O Doc levantou-se e foi buscar uma caixa da prateleira.

Lá dentro havia dominós. Muitos.

E o Doc pô-los todos de pé em fila, um atrás do outro, a atravessar a garagem inteira, à volta do Einstein (que não se mexeu), e demorou tanto tempo a fazer isto que o Marty comeu duas bolachas à espera.

Quando acabou, o Doc apontou para o primeiro dominó da fila.

— Este é o passado. Este é um dia que já aconteceu, há muito tempo.

E depois apontou para o último, lá longe.

— E este é hoje.

E depois deu um piparote no primeiro.

Tac-tac-tac-tac-tac-tac-tac-tac-tac.

Caíram todos.

— Se mexes num bocadinho do passado — disse o Doc — mexes em tudo o que vem depois. Tudinho. Até ao dia de hoje. E às vezes as coisas caem de maneira diferente.

O Marty olhou para os dominós todos deitados no chão.

— Olhar com os olhos — disse ele.

— Nunca com as mãos — disse o Doc.

O salto no tempo, com os relógios a girar ao contrário.

Capítulo Cinco

Como É Saltar

Entraram os dois. As portas fecharam-se para baixo, fuuum, como asas a arrumar-se.

O Einstein sentou-se atrás, muito bem sentado, com aquele ar de cão que já fez isto antes.

— Para onde vamos, Doc?

— Aqui mesmo — disse o Doc. — Este quintal. Esta garagem. Este chão.

— Mas nós já estamos aqui!

— Estamos aqui hoje. — O Doc rodou as três rodinhas: clic, clic, clic. — Vamos ao mesmo sítio, mas há sessenta anos. Muito antes de tu nasceres. Muito antes de a tua mãe nascer. Antes desta garagem existir, se calhar.

— Como é que é? Saltar?

O Doc pensou.

— Sabes quando bebes limonada muito gelada e o frio te sobe pelos dentes até ao nariz?

— Sei.

— É isso. Mas no corpo todo. E dura três segundos.

E carregou no botão.

E o Marty contou, com os dentes a saber a limonada:

Três.

A garagem ficou desfocada, como quando se olha através de um copo de água.

Dois.

Os dezassete relógios da parede giraram todos ao contrário ao mesmo tempo, zzzziiiiiiiiiiiip.

Um.

E depois houve um estalo, como quando se parte um pauzinho seco, e ficou tudo em silêncio.

E o Marty abriu os olhos.

O mesmo sítio há sessenta anos: campo de erva alta, estrada de terra e três casas.

Capítulo Seis

O Quintal Antigo

Não havia garagem.

Havia céu.

O carro estava pousado num campo com erva até aos joelhos, e havia um cheiro a terra molhada e a alguma coisa a cozinhar ao longe, e ouviam-se galinhas.

— Doc... — sussurrou o Marty. — Doc, a tua garagem não está cá.

— Ainda não foi construída — disse o Doc, e havia uma alegria enorme na voz dele. — Saímos. Mas com calma. E lembra-te...

— Olhar com os olhos.

— Boa.

Saíram os dois. O Einstein saiu atrás e cheirou tudo com muito profissionalismo.

E o Marty andou pelo campo com a boca aberta, porque estava tudo igual e estava tudo diferente ao mesmo tempo.

A rua dele estava lá — mas era de terra batida, e não havia passeios, e as casas eram só três.

O poste da esquina estava lá — mas era de madeira.

E o monte ao fundo estava exatamente igual, exatamente na mesma, como se os montes não quisessem saber de nada disto.

— Doc, o monte não mudou nada!

— Os montes são muito devagar, Marty. Para um monte, sessenta anos é o mesmo que um espirro.

E foi então que o Marty viu a árvore.

Ou melhor: não viu a árvore.

No sítio onde na garagem do Doc havia um pinheiro enorme — tão enorme que fazia sombra no telhado todo, e onde o Einstein se deitava todos os dias no verão porque era o sítio mais fresco do mundo — no sítio exato onde estava esse pinheiro gigante...

...havia um pinheirinho do tamanho do Marty.

O Marty ao lado de um pinheirinho do tamanho dele.

— DOC! — gritou o Marty. — DOC, É A ÁRVORE! É A ÁRVORE MAS É PEQUENA!

E o Doc pôs-se ao lado dele, e ficaram os dois a olhar, muito calados, para uma árvore pequenina.

— É a mesma árvore, Marty — disse o Doc baixinho. — Só que agora.

E o Marty percebeu, ali de repente, uma coisa que era grande demais para a cabeça dele e mesmo assim entrou toda:

As coisas velhas foram todas novas.

O pinheiro grande já foi pequeno. As casas velhas já foram acabadas de pintar. Os avós já foram meninos. Tudo. Toda a gente. Todas as coisas.

A pinha no chão, aos pés do pinheirinho.

Capítulo Sete

A Pinha

Aos pés do pinheirinho havia uma pinha.

Era uma pinha bonita, castanha, fechadinha, do tamanho certo para caber na mão de um menino de cinco anos, e o Marty pegou nela antes de pensar.

Foi assim mesmo. A mão foi sozinha.

E depois olhou para o Doc e o Doc estava de costas, e o Marty pensou é só uma pinha, e pôs a pinha no bolso.

— Marty! — chamou o Doc. — Vamos embora, está a ficar tarde e as galinhas já repararam em nós.

Entraram no carro.

Clic, clic, clic.

Limonada nos dentes.

Três, dois, um.

E estavam outra vez em casa.

O quintal ao sol, sem árvore e sem sombra, com o Einstein confuso.

Capítulo Oito

A Árvore que Faltava

A garagem estava lá. Os dezassete relógios estavam lá. A meia sandes de queijo estava lá.

Mas quando saíram para o quintal, o Einstein parou de repente.

Ficou muito quieto. Cheirou o ar. Deu uma volta. Cheirou outra vez. E depois sentou-se no meio do quintal, ao sol, e olhou para o Doc com uma cara de cão muito confuso.

Porque o sítio onde ele se deitava todos os dias de verão — o sítio fresco, o sítio da sombra —

não tinha sombra.

O Marty levantou a cabeça.

Não havia pinheiro.

Não havia pinheiro grande, nem pinheiro pequeno, nem tronco, nem raiz, nem nada. Havia relva. Havia sol a bater na garagem toda. Havia um quintal certo com uma coisa a menos, e era uma coisa enorme.

— Doc — disse o Marty, e a voz saiu-lhe muito fininha. — Doc, onde é que está a árvore?

O Doc olhou para o quintal vazio durante muito tempo.

Depois virou-se para o Marty.

E não gritou. Ajoelhou-se outra vez, para ficar da altura dele.

— Marty. Tens alguma coisa no bolso?

O Marty não disse nada.

Pôs a mão no bolso.

E tirou a pinha.

A pinha na mão aberta, com um pinheiro enorme desenhado por dentro.

E ali, com a pinha na mão, com o sol todo em cima e sem nenhuma sombra, o Marty percebeu a segunda coisa grande daquele dia:

A pinha era a árvore.

Era a árvore antes de ser árvore. Era a árvore enrolada, guardada, à espera. E ele tinha-a tirado do chão sessenta anos antes de ela ter tempo de crescer.

E os dominós tinham caído todos de maneira diferente.

Os olhos do Marty encheram-se de água.

— Doc, eu estraguei tudo.

— Estragaste — disse o Doc, muito sereno. — Foi mesmo uma grande asneira.

E depois pousou-lhe a mão no ombro.

— Ainda bem que temos um carro.

O Marty ajoelhado a plantar a pinha na terra.

Capítulo Nove

Pôr as Coisas no Sítio

Voltaram.

Limonada nos dentes, três, dois, um, e outra vez a erva alta e o cheiro a terra e as galinhas a queixarem-se.

E o Marty foi sozinho — o Doc deixou-o ir sozinho, que é uma coisa que os adultos bons sabem fazer — até ao sítio onde não havia pinheirinho nenhum, porque desta vez chegaram antes.

Ajoelhou-se.

Fez um buraquinho na terra com o dedo.

E pôs lá a pinha.

E tapou.

E disse, muito baixinho, porque achou que era o que se devia dizer:

— Desculpa. Cresce bem.

Quando se levantou, ficou ali a olhar para o chão durante um bocado, e não aconteceu absolutamente nada, porque as árvores demoram e não há maneira de as apressar. E o Marty achou que isso era, de certa maneira, muito justo.

Depois voltaram para casa.

E quando as portas se abriram para cima e eles saíram para o quintal, estava lá.

O pinheiro enorme outra vez no quintal, com o Einstein na sombra.

Enorme. Escuro. Cheio de agulhas. Com sessenta anos de crescer em cima, todos feitos ao mesmo tempo, enquanto eles atravessavam três segundos.

E, debaixo dele, na sombra fresca, o Einstein já estava deitado, com uma orelha levantada e outra caída, como se nunca tivesse acontecido nada.

Noite na garagem, todos a bocejar debaixo da lâmpada.

E depois, quando já era noite e os dezassete relógios faziam tique todos em alturas diferentes, o Marty perguntou a última pergunta do dia.

— Doc? E para a frente? Podemos ir ver o amanhã?

O Doc ficou calado um bom bocado.

— Podemos ir espreitar — disse. — Mas fica sempre um bocadinho por acabar.

— Como assim?

— O passado já está escrito, Marty. Está todo escrito, do princípio ao fim, e não se apaga com borracha — só se estraga. — O Doc apontou para a estrada de giz no chão da garagem, para o lado dos tracinhos que ainda não tinham sido pintados. — Mas o amanhã ainda não. O amanhã ainda está em branco.

— E quem é que o escreve?

— Tu. — O Doc bocejou. — Amanhã de manhã. Como toda a gente.

O Marty pensou nisto com muito cuidado.

— Doc?

— Diz.

— Então toda a gente já tem uma máquina do tempo.

— Ai sim? E qual é?

— É dormir — disse o Marty. — A gente fecha os olhos, e depois abre, e já é amanhã.

O Doc olhou para ele.

E depois deu uma gargalhada enorme, daquelas que fazem cair as ferramentas da bancada, e disse que aquilo era a coisa mais inteligente que tinha ouvido em toda a sua vida, incluindo tudo o que ele próprio já tinha dito.

E o Einstein bocejou.

E o Marty bocejou.

E lá fora o pinheiro enorme, que uma vez tinha sido uma pinha na mão de um menino, ficou muito quieto no escuro, a fazer o que as árvores fazem de noite, que é crescer sem ninguém ver.

Fecha os olhos.

Três.
Dois.
Um.

Fim