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O Pirilampo
que Perdeu a Luz

Uma fábula para adormecer, em nove capítulos

O vale das ervas altas ao luar, cheio de pirilampos.

Capítulo Um

O Vale das Ervas Altas

Havia, muito longe daqui e ao mesmo tempo mesmo aqui ao lado, um vale onde a erva crescia tão alta que os coelhos se perdiam lá dentro e tinham de assobiar uns aos outros para se encontrarem.

Chamava-se o Vale das Ervas Altas.

De dia, o vale era verde e barulhento. As abelhas discutiam com as flores, o ribeiro contava sempre a mesma história às pedras, e o vento passava a correr sem nunca pedir licença.

Mas de noite... ah, de noite o vale era outra coisa.

De noite, o vale acendia-se.

Centenas de pirilampos saíam de entre as ervas e subiam devagarinho pelo ar, como se alguém tivesse deixado cair um punhado de estrelas e elas tivessem decidido ficar.

E o mais pequenino de todos os pirilampos chamava-se Tomé.

Tomé tinha as asas do tamanho de duas pétalas de malmequer, uma antena um bocadinho torta e uma luz — uma luz cor de mel morno — que ele achava que não era grande coisa.

— A minha luz é pequenina — dizia ele à mãe.

— A tua luz é do tamanho certo — respondia a mãe. — As luzes não se medem com fita métrica.

A mãe e o Tomé lado a lado numa folha de erva.

Todas as noites, os pirilampos do vale faziam a mesma coisa: acendiam-se e cantavam a canção de sempre, aquela que os pirilampos cantam desde que o mundo é mundo:

Brilha, brilha, pirilampo,
lanterna do campo escuro.
Quem dá luz a quem tem medo
nunca fica no escuro.

E o vale ficava dourado até de manhã.

O Tomé apagado, escondido debaixo de uma folha.

Capítulo Dois

A Noite em que a Luz se Apagou

Numa noite de setembro, quando o orvalho já estava a arrumar-se nas folhas, Tomé acordou, espreguiçou as quatro patinhas, bocejou como bocejam os pirilampos (é um bocejo tão pequeno que só se ouve com o coração) e fez o que fazia sempre:

Fechou os olhos e acendeu-se.

Só que não se acendeu.

Tomé abanou-se. Tentou outra vez. Fez muita força, tanta força que a antena torta ficou ainda mais torta.

Nada.

Nem uma faísca. Nem um brilhozinho. Nem sequer aquele bocadinho de luz que se vê nos olhos de um gato quando ele nos olha do outro lado do quarto.

Tomé estava escuro.

Lá em cima, os outros pirilampos começaram a subir, dourados e alegres, e a canção espalhou-se pelo vale como manteiga em pão quente.

Brilha, brilha, pirilampo...

Tomé escondeu-se debaixo de uma folha de azeda e não cantou.

Ficou ali muito quieto, a pensar uma coisa que dói: e se eu deixei de ser um pirilampo?

Foi então que uma voz grossa e molhada disse, mesmo ao lado dele:

— Ó rapaz. Estás com cara de quem perdeu alguma coisa.

A rã Filomena na pedra, de frente para o Tomé.

Capítulo Três

Filomena, a Rã que Sabia Ouvir

A voz era da rã Filomena, que vivia junto ao ribeiro numa poça só dela, com uma pedra para se sentar e uma folha de nenúfar para os dias de chuva.

Filomena era velha. Tão velha que já tinha visto o vale nevado três vezes, e no vale só neva de cem em cem anos (as rãs contam o tempo à maneira delas).

— Perdi a minha luz — disse Tomé, e a voz saiu-lhe pequenina.

— Ora. — Filomena piscou um olho de cada vez, como as rãs fazem quando estão a pensar a sério. — E procuraste bem? Às vezes as coisas caem para trás das orelhas.

— Os pirilampos não têm orelhas.

— Pois é. Isso complica.

Filomena deu um salto até à pedra e sentou-se com toda a solenidade de quem vai dizer algo importante.

— Escuta, Tomé. Eu sei tratar de sapos com soluços e de peixes com má disposição. Mas luz apagada não é comigo. Isso é com a Aurora.

— Quem é a Aurora?

— A aranha que tece com fios de luar, lá na sebe das silvas. Se alguém sabe onde é que a luz se mete quando desaparece, é ela. Mas atenção — e aqui Filomena baixou a voz — não interrompas a Aurora a meio de um ponto. Ela desmancha tudo e depois tem de recomeçar, e fica com um humor terrível.

Tomé agradeceu, abriu as asas e voou para dentro da noite.

E era estranho voar sem luz. Era como andar sem sapatos por um chão que não conhecemos.

A aranha Aurora pendurada num fio, cara a cara com o Tomé.

Capítulo Quatro

Aurora, a Aranha dos Fios de Luar

A sebe das silvas ficava do outro lado do ribeiro, onde as amoras nascem pretas e brilhantes como botões de casaco.

E ali, entre dois ramos, estava a teia mais bonita que Tomé alguma vez vira.

Não era uma teia normal. Era prateada e transparente, e tremia devagar, e quando a lua batia nela parecia que a teia estava a respirar.

No meio, uma aranha comprida e elegante puxava um fio com oito mãos ao mesmo tempo.

Tomé esperou. Esperou muito. Esperou tanto que quase adormeceu de pé, que é uma coisa que os pirilampos fazem melhor do que se pensa.

Por fim, Aurora deu o nó final e disse, sem levantar a cabeça:

— Podes falar. O ponto está acabado.

— Boa noite, senhora Aurora. Perdi a minha luz.

Aurora desceu por um fio, devagarinho, e ficou pendurada mesmo à frente do nariz dele.

— Perdeste ou apagou-se?

Tomé pensou.

— Não sei. Qual é a diferença?

— Toda — disse a aranha. — O que se perde está nalgum sítio. O que se apaga está no mesmo sítio, só que às escuras.

Tomé achou aquilo muito complicado para a hora que era.

Aurora suspirou e cortou um fio de luar do bordo da teia — um fio fininho, fininho, que brilhava como cabelo de anjo.

O fio de luar, a brilhar, entregue ao pirilampo.

— Toma. Leva isto. Não é a tua luz, é emprestada, e a luz emprestada só dura uma noite. Mas chega para veres o caminho até casa da toupeira.

— A toupeira? Mas as toupeiras vivem no escuro. Não percebem nada de luz.

Aurora sorriu (as aranhas sorriem com as pernas da frente).

— Exatamente por isso.

O túnel da toupeira entre raízes, com o Gaspar e o Tomé.

Capítulo Cinco

Gaspar, a Toupeira que Vivia às Escuras

A casa da toupeira ficava debaixo do campo de giestas e tinha uma porta redonda com um monte de terra fofa por cima, que é como as toupeiras dizem "é aqui".

Tomé bateu com a antena torta: toc, toc, toc.

Um focinho cor-de-rosa apareceu de dentro da terra, seguido de um par de mãos enormes e de uns olhos muito pequeninos, quase fechados.

— Se é para vender alguma coisa, não quero. Se é para conversar, entra.

Gaspar era uma toupeira redonda, gorducha e muito bem-disposta. Lá dentro, o túnel era quentinho e cheirava a raízes e a chuva antiga.

— Perdi a minha luz — disse Tomé pela terceira vez naquela noite, e já começava a doer-lhe dizer aquilo.

Gaspar coçou o focinho.

— Ah. Que chatice. — E depois, ao fim de um bocado: — Mas sabes que eu nunca tive nenhuma?

Tomé ficou calado.

— Nasci às escuras, vivo às escuras e vou morrer às escuras, e não me queixo — continuou a toupeira, muito serena. — Sabes como é que eu ando por aqui sem me perder?

— Não.

— Pelo cheiro. Pelo ar. Pelas raízes que conheço uma a uma. — Gaspar bateu com a pata no chão. — Esta é a raiz do medronheiro. Aquela é do sobreiro velho. E há ali um sítio onde a terra é mais fria, e é por ali que eu sei que estou perto do ribeiro.

Tomé olhou à volta e não viu absolutamente nada.

— Isso não te faz falta? A luz?

Gaspar pensou muito tempo. As toupeiras pensam devagar, mas pensam bem.

— O escuro não é o contrário da luz, rapaz. O escuro é só o sítio onde a luz ainda não chegou. — Fez uma pausa. — Se calhar a tua não desapareceu. Se calhar está só à espera.

— À espera de quê?

— De ser precisa.

E a toupeira, que tinha dito a coisa mais sábia da noite sem dar por isso, ofereceu-lhe uma minhoca ao jantar. Tomé recusou, com muita educação.

A toupeira a oferecer uma minhoca e o Tomé a recusar com educação.
O caracol Bartolomeu e o Tomé na folha, ao luar.

Capítulo Seis

Bartolomeu, o Caracol que Nunca Tinha Pressa

Já ia alta a noite quando Tomé saiu do túnel.

O fio de luar da Aurora estava a ficar fraquinho. Piscava, como pisca uma vela quando a janela está aberta.

E foi então que Tomé, que voava depressa e distraído, se estampou — pumba! — contra uma coisa dura e redonda.

— Com licença — disse a coisa dura e redonda. — Estou a atravessar.

Era um caracol. Um caracol castanho, com uma concha às riscas, que estava a meio de uma folha de couve-brava.

— Desculpe! Não o vi!

— Não faz mal. Quase ninguém me vê. Eu sou muito devagar e o mundo é muito depressa. — O caracol esticou os corninhos. — Chamo-me Bartolomeu. Vou ali.

Tomé olhou. "Ali" era a ponta da folha. Faltavam quatro dedos de caminho.

— E demora quanto tempo?

— Toda a noite, mais ou menos.

Tomé não sabia se havia de rir ou de chorar.

— Não te fartas? De ser tão... tão devagar?

Bartolomeu parou. Recolheu um corninho. Voltou a esticá-lo.

— Sabes o que eu vi hoje, pirilampo? Vi uma gota de orvalho a nascer numa ponta de erva. Do princípio ao fim. Vi ela ficar redonda, vi ela ficar pesada, vi ela cair. — Fez uma pausa. — Tu já viste isso alguma vez?

— Não...

— Pois. Tu passas por cima. Eu passo por dentro.

E o caracol continuou o seu caminho — devagarinho, devagarinho, deixando atrás de si um rasto que brilhava um bocadinho ao luar.

Tomé ficou a olhar para aquele rasto durante muito tempo.

Até um caracol brilha mais do que eu, pensou. E aquilo era um pensamento triste, mas era também, sem ele saber, o princípio de um pensamento bom.

A coruja enorme a ouvir o Tomé, no carvalho velho.

Capítulo Sete

A Coruja do Carvalho Velho

No cimo da colina havia um carvalho tão antigo que já ninguém se lembrava de o ver pequeno.

E no buraco mais alto do carvalho vivia a coruja.

A coruja não tinha nome. As corujas acham que os nomes são para quem precisa de ser chamado, e ninguém chama uma coruja.

Tomé subiu. Subiu com as asas cansadas e com o fio de luar já quase apagado, que era agora só um cheirinho de brilho na ponta da pata.

— Senhora coruja?

Dois olhos enormes abriram-se de repente na escuridão. Dois olhos cor de castanha, redondos como pratos.

— Estás longe de casa, luz pequena.

— Já não sou luz nenhuma. Apaguei-me.

A coruja rodou a cabeça quase toda à volta, que é uma coisa que assusta um bocadinho da primeira vez.

— Conta-me a noite. Do princípio.

E Tomé contou. Contou a rã, contou a aranha, contou a toupeira e o caracol. Contou o medo. Contou aquela coisa que ele não tinha dito a ninguém: que tinha vergonha de voltar para casa assim, apagado, à frente de toda a gente.

A coruja ouviu tudo sem interromper uma única vez. (As corujas são as melhores ouvintes do bosque. É por isso que têm aqueles ouvidos escondidos debaixo das penas.)

Quando ele acabou, ela disse apenas:

— Ouve.

Tomé ouviu.

E ao longe, muito ao longe, lá no fundo do vale, ouviu-se uma coisa pequenina.

Um choro.

Capítulo Oito

O que Estava Perdido

Tomé desceu do carvalho tão depressa que quase se esqueceu de abrir as asas.

O choro vinha de dentro de um silvado, no sítio onde as silvas são mais espessas e mais espinhosas e onde nenhum animal sensato se mete.

E lá dentro, encostada a um espinho, estava uma pirilampa mesmo muito pequenina. Mais pequena do que ele. Tão pequena que devia ter nascido naquela mesma semana.

Estava apagada. E estava a tremer.

— Estou perdida — disse ela. — Entrei aqui a brincar e agora não sei sair, e está tudo escuro, e eu tenho medo do escuro, e quando tenho medo não me consigo acender, e quando não me consigo acender tenho ainda mais medo, e...

E foi aqui.

Foi exatamente aqui que aconteceu.

Porque Tomé, ao ouvir aquilo, esqueceu-se completamente de si próprio. Esqueceu-se da sua luz, da sua vergonha, da sua noite inteira. Só pensou numa coisa: ela precisa de ver o caminho.

E, sem fazer força nenhuma — sem apertar os olhos, sem se abanar, sem sequer tentar —

acendeu-se.

O momento em que o Tomé se acende e ilumina o silvado todo.

Não com uma luzinha pequenina.

Acendeu-se dourado, quente e enorme, como uma janela de cozinha numa noite de inverno. As silvas todas ficaram cor de mel. Os espinhos ficaram cor de mel. A cara da pirilampa pequenina ficou cor de mel, e ela parou de chorar de tanta surpresa.

— Anda — disse Tomé. — Segue-me. Eu vou à frente.

E foram os dois, devagarinho, por entre os espinhos, ele à frente a alumiar e ela atrás, agarrada com as patinhas ao ar.

E a meio do caminho — sem que ninguém lhe pedisse — a pirilampa pequenina acendeu-se também.

Primeiro fraquinho.
Depois um bocadinho mais.
Depois inteira.

Os dois pirilampos acesos a sair por entre os espinhos.

Porque é assim que funciona. A luz é a única coisa no mundo que fica maior quando se reparte.

A madrugada no vale, com os pirilampos a apagarem-se devagar.

Capítulo Nove

O Regresso ao Vale

Voltaram os dois ao Vale das Ervas Altas quando o céu já começava a pensar em ficar azul.

E lá estavam todos à espera: a mãe do Tomé, e os primos, e os tios, e os pirilampos velhos que já quase não voam e ficam sentados nas folhas a dar conselhos.

Ninguém perguntou nada. Os pirilampos não fazem perguntas ao amanhecer.

Mas Filomena, a rã, veio da poça só para ver.
E Aurora ficou a olhar da sua teia, muito quieta.
E Gaspar espreitou pelo buraco redondo, com o focinho cor-de-rosa cheio de terra.
E Bartolomeu, o caracol — Bartolomeu chegou três dias depois, mas chegou, e disse que tinha valido a pena o caminho.

A rã, a aranha, a toupeira e o caracol, todos a ver.

E todos juntos cantaram a canção de sempre, aquela que os pirilampos cantam desde que o mundo é mundo:

Brilha, brilha, pirilampo,
lanterna do campo escuro.
Quem dá luz a quem tem medo
nunca fica no escuro.

E depois, um a um, foram-se apagando — não porque tivessem perdido a luz, mas porque estava na hora.

O ribeiro baixou a voz.

O vento deitou-se na erva e ficou quieto.

A coruja fechou um olho, e depois o outro.

E Tomé enroscou-se debaixo da sua folha de azeda, com a antena torta a fazer-lhe cócegas no nariz, e adormeceu com aquela luz pequenina e quente ainda acesa por dentro.

Como aquela que tu tens agora.

Boa noite.

Fim