Uma história para adormecer
O Regresso ao Centro da Terra
Três primos, um vulcão adormecido e um caminho com duzentos anos.
Capítulo 1
O pergaminho
Há muitos, muitos anos, um professor chamado Lidenbrock e o sobrinho Axel encontraram um papel velhíssimo escondido dentro de um livro ainda mais velho. Estava escrito numa letra antiga, feita de riscos e de pontas, e dizia assim:
Desce à cratera do vulcão Snæfell, que a sombra de Scartaris acaricia ao fim de junho, viajante atrevido, e chegarás ao centro da Terra.
O professor e o sobrinho desceram. Voltaram com histórias tão grandes que ninguém as acreditou. E o pergaminho, bem dobrado, ficou a dormir numa gaveta durante duzentos anos.
Até que, numa manhã de nevoeiro, a gaveta foi aberta por três primos.
A Inês, a mais velha, gostava de mapas e de acertar. O Tomás, o do meio, gostava de pedras e de as pôr todas nos bolsos. E a Vera, a mais pequena, gostava de perguntar porquê, e depois de perguntar outra vez.
- Duzentos anos - leu a Inês, devagar. - E se fôssemos nós a ver?
- Mas o papel diz a mesma entrada de sempre - disse o Tomás. - E se alguém nos seguir?
Por isso fizeram tudo em segredo. Nenhum vizinho soube, nenhum amigo soube. Os três primos meteram lanternas, cordas, pão e um caderno nas mochilas, atravessaram terra e mar e chegaram a uma ilha de pedra negra chamada Islândia.
Ao fundo, branco de neve como uma carapuça de dormir, esperava o Snæfell.
Subiram devagar, pela neve, pelo gelo, com o coração a bater um bocadinho depressa. No cimo, o vulcão tinha uma cratera enorme, redonda, calada. Os três deram as mãos e desceram para dentro dela.
E assim começou o regresso ao centro da Terra.
Capítulo 2
Três buracos e uma sombra
No fundo da cratera havia três buracos escuros, lado a lado, como três bocas a bocejar.
- O professor Lidenbrock entrou pelo do meio - disse a Inês, a espreitar o caderno. - Mas o pergaminho diz que é a sombra que escolhe.
Esperaram. O sol foi andando pelo céu, a sombra do rochedo foi andando pelo chão, e, quando já tinham os pés dormentes, ela deslizou devagarinho e pousou, direitinha, sobre o buraco da esquerda, o do lado do poente.
- Não é o do professor - sussurrou o Tomás.
- Pois não - disse a Inês, e sorriu. - A montanha quer mostrar-nos outro caminho.
- Então é uma aventura só nossa! - exclamou a Vera, e foi a primeira a acender a lanterna.
O buraco levava a uma escadaria. Não a tinha feito ninguém: fora a lava, há muito tempo, que escorrera e arrefecera em degraus largos, redondos, lisos como pão. Os primos desceram um a um, a contar em voz baixa. Cento e doze degraus. Cento e treze. Cento e catorze.
Lá em baixo havia um túnel estreito, e as paredes eram feitas de camadas, como um bolo de muitos andares. Cada camada era um tempo diferente. Numa havia conchinhas, noutra uma folha de feto desenhada na pedra, noutra o rasto de um bichinho que andara por ali antes de haver pessoas.
- Isto é um livro - disse a Vera. - Só que está escrito em pedra.
E os três seguiram, a ler com as lanternas, arco atrás de arco, galeria atrás de galeria, sempre a descer.
Capítulo 3
A floresta de cristal
Nas paredes brilhavam fios de cobre cor de telha, riscas verdes de manganês, pintas amarelas de ouro. O Tomás quis levar tudo. A Inês deixou-o levar uma pedrinha só.
- O resto fica para a Terra - disse ela. - É o tesouro dela.
O caminho enrolava-se como uma concha de caracol. Pareceu uma eternidade, até que, de repente, a galeria abriu-se e os três pararam de boca aberta.
Era uma floresta. Mas não de árvores: de cristais. Colunas brancas subiam do chão, colunas brancas desciam do teto, e entre elas, sem se saber de onde, vinha uma luz mansa, de leite. Quando a luz batia nos cristais, partia-se em mil fitas de cores, vermelhas, azuis, verdes, que corriam pelas paredes e pelas caras dos primos.
- Estamos dentro de um arco-íris - sussurrou a Vera.
Atravessaram a floresta em bicos de pés, para não acordar o brilho. Do outro lado esperava uma escadaria, mais larga e mais escura do que a primeira, a descer para um poço que não tinha fundo à vista.
Mas já ninguém tinha forças. As pernas pesavam, os olhos fechavam-se sozinhos. Por sorte, a rocha tinha uma reentrância na parede, uma espécie de ninho, como se alguém a tivesse deixado ali de propósito.
Deitaram-se os três, encostados uns aos outros, a Vera no meio, bem quentinha.
E foi então que o chão começou a tremer.
Capítulo 4
A terra a espreguiçar-se
Primeiro foi um tremorzinho, a fazer cócegas nas costas. Depois foi mais forte. Depois foi tão forte que as pedras saltavam e as lanternas rolavam e se ouvia, ao longe, um estalar enorme, como se a montanha inteira partisse nozes.
- Agarrem-se! - gritou a Inês. - Agarrem-se uns aos outros!
A Vera tapou os ouvidos. O Tomás fechou os olhos. A Inês abraçou os dois primos com todos os braços que tinha, que eram só dois, mas pareceram muitos.
Caíram pedras por todo o lado. Caiu uma ao lado, outra mais atrás, outra à frente. E, de repente, silêncio.
Quando abriram os olhos, estavam num sítio muito pequenino, rodeado de pedras caídas, sem entrada e sem saída. Só a luz das lanternas, que tremia um bocadinho.
- Ficámos presos - disse o Tomás, baixinho.
Ninguém disse nada. Ouvia-se só a respiração dos três.
- A Terra não nos quis fazer mal - disse a Vera, por fim, devagar. - Acho que se estava só a espreguiçar. Tanto tempo deitada, coitada.
E foi a Vera que reparou primeiro. Num dos cantos da parede, onde a luz tocava de lado, havia uma risca mais escura entre duas pedras. Uma fresta, tão estreita como um sorriso.
Passaram por ela de lado, um de cada vez, a encolher a barriga.
Do outro lado, uma rede de cavernas esperava por eles. E numa delas, ao longe, brilhava uma luzinha que não era das suas lanternas.
Capítulo 5
A galeria dos desenhos
Seguiram a luzinha. E, pouco a pouco, as paredes começaram a mudar. Já não eram só pedra: tinham desenhos.
Desenhos de gente muito antiga, pintados com mãos vermelhas e traços pretos. Havia homens e mulheres a correr atrás de animais enormes. Havia filhos às cavalitas. Havia fogueiras e círculos de pessoas sentadas à volta, a contar histórias. Era como um livro de figuras sem palavras, e parecia nunca mais acabar.
- Quem pintou isto? - perguntou a Vera.
- Gente que vivia cá em baixo - disse a Inês, a baixar a voz. - Lembram-se do que o Axel escreveu? Que o tio dele viu aqui um pastor, um pastor enorme.
O Tomás engoliu em seco.
- Enorme quanto?
- Não sei. Mas se esta gente ainda cá vive, nós somos os visitantes. Entrámos sem bater à porta.
Ficaram calados a olhar para os desenhos. Era uma sensação esquisita e bonita ao mesmo tempo: sentir que o mundo era muito maior, e muito mais velho, do que eles tinham pensado.
- Então vamos com muito cuidado - disse a Vera. - E com educação.
Capítulo 6
A dança das mil luzes
A luz ficava cada vez mais forte. E, de repente, a parede do lado esquerdo acabou, como uma cortina que se abre.
Diante deles havia um desfiladeiro tão grande que o fundo se perdia na escuridão. Das fendas das rochas caíam cascatas finas, prateadas. As paredes eram cobertas de musgo macio. E, nesse musgo, acordavam aos poucos milhares e milhares de pontinhos dourados.
Eram pirilampos. Tinham dormido ali sempre, no escuro, sem ninguém para os ver. E agora, com aquelas lanternas e aqueles visitantes, abriam os olhinhos e acendiam-se, um a um, como quem diz: quem está aí?
- É uma cidade - murmurou o Tomás. - Vista de cima, de noite.
- Uma cidade com as luzes todas acesas - disse a Vera.
Os pirilampos subiam, desciam, rodopiavam uns à volta dos outros. Era uma dança lenta, silenciosa, sem música nenhuma, e ao mesmo tempo era a coisa mais musical que os primos tinham visto.
Ficaram ali muito tempo, sentados no chão, sem falar, a ver a dança das mil luzes.
Mil luzes a dançar,
e nenhuma pressa.
Capítulo 7
O pastor que não vê
Contornaram o desfiladeiro por um caminho estreito, agarrados à parede, e desceram finalmente a um planalto verde.
Ali, onde as cascatas regavam a terra, crescia uma floresta esquisita. Havia palmeiras gigantes, enroladas em trepadeiras, e tapetes de erva a perder de vista. Mas era tudo pálido, sem cor e sem cheiro. Faltava-lhe o sol.
- Parece uma floresta desenhada a lápis - sussurrou a Vera.
Andavam nela, encantados, quando as folhas à frente se abriram. Os três ficaram parados como estátuas.
Era uma manada de mamutes. Mamutes de verdade, enormes, peludos, com presas curvas e olhos pequeninos e doces. E a guardá-los vinha um homem. Um homem tão alto que tinha de baixar a cabeça para passar entre as palmeiras, com mais de três metros de altura.
Era o pastor.
Caminhava devagar, com um bastão comprido na mão, e vinha direito a eles. O Tomás agarrou a mão da Inês. A Inês agarrou a mão da Vera. Não havia onde se esconder.
O pastor chegou, e passou. Passou a menos de dois metros dos três, sem os olhar, com os olhos muito abertos, parados, a fitar a frente.
Foi só então que a Vera percebeu.
- Ele não nos viu - disse ela, e a voz tremia um bocadinho. - Ele não vê.
Era isso. Aquele povo vivia há milhares de anos num mundo sem sol, e os olhos, que ali não serviam para nada, tinham ido adormecendo geração após geração. O pastor conhecia a floresta pelo cheiro, pelo som, pelo chão debaixo dos pés. Era um mundo todo dele, e ele não sentia falta de nada.
- Não precisa da luz que nós trouxemos - disse a Inês, devagar. - Tem outras coisas melhores, que nós não temos.
Os três apagaram as lanternas por um bocadinho, em respeito. E ficaram a ouvir, no escuro, os passos pesados dos mamutes a afastarem-se.
Capítulo 8
O escorrega
Seguiram pela borda da floresta, atravessaram uma pontezinha de rocha e esgueiraram-se por trás de uma cascata, onde a água fazia uma cortina e escondia a entrada de um túnel pequenino.
Tiveram de entrar de gatas, como lagartixas, um atrás do outro. O túnel descia suavemente. Depois descia mais. Depois descia tanto que o chão, molhado e liso, já não se deixava pisar.
- Inês! - gritou o Tomás. - Não consigo parar!
- Nem eu! - gritou a Inês. - Mãos nos joelhos! Cabeça baixa!
E os três escorregaram.
Escorregaram por canos de pedra, por curvas, por rampas, por esguichos de água fria que lhes faziam cócegas nas orelhas. Ora iam para a esquerda, ora para a direita, ora giravam como piões. A Vera ria e gritava ao mesmo tempo, porque era, afinal, o melhor escorrega do mundo. Às vezes perdiam os sentidos um segundo, e depois estavam de novo a escorregar.
Ninguém sabia para onde iam. Só a Terra, que os segurava com as mãos todas, sabia.
Capítulo 9
O mar de Lidenbrock
Foram cuspidos para fora com um grande plof!, e caíram num rio de corrente forte. Agarraram-se a troncos que passavam e deixaram-se levar, cansados, de olhos fechados.
A corrente foi abrandando. A água ficou calma. E quando abriram os olhos, não acreditaram.
Estavam num mar. Um mar enorme, sem fim, debaixo da terra, com uma luz branca e fria por cima, como a das auroras boreais, e arribas altíssimas dos lados. Era dia, ali, sem haver sol. Era sempre dia.
- O mar de Lidenbrock - disse a Inês, de olhos brilhantes. - O professor deu-lhe o nome dele. Chegámos ao caminho antigo!
A maré, empurrada por uma lua que ninguém via, levou-os até uma pequena baía. A praia não era de areia. Era feita de ossos, ossos antiquíssimos, de répteis do mar que tinham vivido há milhões de anos e agora dormiam transformados em pedra.
Do mar saltavam peixes transparentes, de um tempo que já não existe, que subiam ao ar por um instante e voltavam a mergulhar sem fazer barulho.
E lá no alto, lentamente, passou uma sombra. Uma sombra grande, de asas abertas, mais compridas do que um autocarro.
- Não se mexam - sussurrou a Inês.
Era o Quetzalcoatlus, o maior réptil voador que alguma vez existiu. Deslizou sobre a baía, com as asas paradas, a olhar para baixo com um olho curioso e enorme. Depois, sem pressa, virou-se para o penhasco e foi pousar no seu ninho, lá em cima, numa fenda da pedra.
O mar ficou como se nada tivesse acontecido. Só os três ficaram diferentes: mais pequenos, mais atentos, mais felizes.
Fizeram uma jangada com os troncos, atando-os com a corda das mochilas, como os seus antepassados tinham feito. Largaram para sul, a remar devagar. A água ficou tão transparente que se via lá no fundo uma escola inteira de peixes de escamas brilhantes, a nadar entre criaturas que os livros diziam já não existir.
Longe da margem, deitaram-se na jangada, imóveis, rodeados de silêncio. Tudo à volta parecia parado no tempo.
Fecharam os olhos. E pediram, os três, com muita força, que o caminho fosse bom.
Capítulo 10
A ilha das carapaças e a saída
A maré levou a jangada a uma ilhota coberta de enormes carapaças de tartaruga, vazias, grandes como casinhas. Do outro lado, um canal estreito era a última coisa que os separava da terra firme.
A ilha estava viva. Das fendas da rocha saíam jatos de vapor quente, que subiam ao ar, faziam nuvens, e as gotas que voltavam a cair pareciam pequenos arco-íris. Havia fontes de água morna por todo o lado. Os primos lavaram os pés cansados, deitaram-se no chão quentinho e adormeceram.
Sonharam que eram parte daquele mundo. Um mundo dentro de um mundo, um tempo dentro de um tempo, um sonho dentro de outro sonho.
Foi um trovão que os acordou.
O mar tinha-se enfurecido. Uma tempestade com relâmpagos varria a ilha, as ondas partiram a jangada em mil bocados e o canal tornara-se uma torrente, a correr depressa, depressa, direita a um buraco redondo e negro.
- Para as carapaças! - gritou a Inês. - Cada um na sua!
Cada um escondeu-se numa carapaça, como num barquinho. A água arrastou-os pelo canal, os relâmpagos riscaram o ar à volta, e alguns deles transformaram-se em bolas de luz, bolas de luz redondas e curiosas, que começaram a seguir as carapaças como cãezinhos.
Depois o buraco engoliu-os. Caíram, caíram, e, quando já não esperavam, foram atirados de lado para dentro de um túnel apertado, onde a água os empurrava a grande velocidade. Atrás deles, as bolas de luz iluminavam tudo como o dia. Estavam a ter a corrida da vida deles.
O túnel acabou de repente. As três carapaças flutuaram, sossegadas, no fundo de um poço enorme.
- Já passou? - perguntou a Vera, a espreitar.
Ainda não. Lá de cima desceu um feixe de luz, e as bolas, uma a uma, entraram no poço com trovões macios. Pairaram sobre as carapaças a girar, a girar, a desenhar riscos de luz no ar. E, quando a luz era já tanta que quase não se aguentava, rebentaram, devagarinho, em mil faíscas minúsculas, que caíram como chuva de estrelas.
Depois, ficou o escuro. E lá em cima, muito longe, um pontinho de luz.
Estavam a subir.
A água à volta foi ficando mais quente, mais espessa, mais lenta, até se tornar numa pasta ardente. O calor era grande, mas a subida era tão rápida que quase não se sentia. Chamas dançavam nas paredes. Não era o vulcão por onde tinham entrado, esse estava adormecido. Este estava acordado.
Mas o poço em que viajavam não era o principal. Era um corredor ao lado, um atalho, e por isso a lava não os tocava. Subiam, subiam, cada vez mais depressa, e o pontinho de luz vinha ao encontro deles, cada vez maior.
Até que saíram. Saíram por uma das mil bocas da montanha e ficaram a flutuar, muito devagar, numa nuvem de cinza quente, a ver correr as serpentes de fogo pela encosta.
- Onde estamos? - perguntou o Tomás.
Ao longe, o mar azul. Em volta, montes verdes e a luz quente de um sol que nenhum dos três tinha visto há muito tempo.
- Estamos no Etna - disse a Inês, a sorrir. - Na Sicília. A dois mil quilómetros de onde começámos.
E ficaram os três sentados na encosta da montanha que os tinha cuspido para a luz, a ver a erupção de longe, em segurança, de mãos dadas.
E assim terminou
o regresso ao centro da Terra.
Nessa noite, a Vera pôs a pedrinha do Tomás debaixo da almofada. Não era ouro, nem cobre, nem cristal. Era só uma pedra cinzenta e simples. Mas guardava dentro dela o barulho de um mundo muito antigo, que dormia por baixo de todos os mundos.
E adormeceu a sonhar com pirilampos.
Boa noite.
Fim
Inspirada no álbum Return to the Centre of the Earth, de Rick Wakeman, e no romance Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne. Texto original, escrito em casa.