O Sonic e o Dia
Mais Devagar do Mundo
Uma aventura na Colina Verde, em nove capítulos
Capítulo Um
O Mais Rápido do Mundo
Na Colina Verde havia palmeiras, havia cascatas, havia falésias às quadradinhas cor de terra, e havia anéis dourados a flutuar no ar como se alguém os tivesse pendurado em fios invisíveis.
E havia o Sonic.
O Sonic era um ouriço azul do tamanho de um menino de cinco anos, com os espinhos todos virados para trás — porque quando se corre assim tão depressa, os espinhos não têm outro remédio.
O Sonic era rápido.
Rápido a sério. Rápido de fazer voar as folhas. Rápido de deixar o vento para trás a dizer ei, espera. Tão rápido que, se corresse à volta da colina, chegava ao sítio de onde tinha partido antes de acabar de sair de lá.
De manhã, dava três voltas ao mundo antes do pequeno-almoço.
Ao almoço, apanhava cem anéis em quatro segundos.
E à tarde, subia o loop gigante da colina, aquele que ninguém mais conseguia subir, e ficava um bocadinho de cabeça para baixo lá no cimo só para se rir.
Vuuuuum.
Havia só uma coisa que o Sonic não sabia fazer.
Estar quieto.
Estar quieto era, para ele, a coisa mais difícil do mundo inteiro. Mais difícil do que o loop. Mais difícil do que a cascata. Quando alguém lhe dizia "espera aí um bocadinho", os pés dele começavam a mexer-se sozinhos, como se tivessem uma opinião diferente da dele.
Capítulo Dois
A Oficina do Tails
O melhor amigo do Sonic chamava-se Tails.
O Tails era uma raposinha cor de laranja com duas caudas — sim, duas — e quando as rodava muito depressa, uma para cada lado, subia no ar como um helicóptero pequenino.
Mas o Tails não era rápido. O Tails era outra coisa.
O Tails era paciente.
Naquela semana estava a arranjar o avião dele, um biplano vermelho a que chamava Tornado. Estava a apertar os parafusos das asas. Um. A. Um.
O Sonic entrou na oficina a correr, como entrava em todo o lado.
— Tails! Ainda estás nesses parafusos? Estavas nisso ontem.
— São dezoito parafusos, Sonic. Vou no nove.
— Nove! Eu aperto-te os outros nove num segundo.
— Não, não, não...
Mas o Sonic já tinha pegado na chave de fendas.
Zzzzt-zzzzt-zzzzt-CRAC.
A asa soltou-se toda. Os parafusos saltaram pelo ar como pipocas. Um deles foi parar dentro da chávena do Tails.
Ficaram os dois a olhar para a asa no chão.
— Desculpa — disse o Sonic.
— Eu sei — disse o Tails. E depois, sem gritar nem nada, foi buscar a asa e começou outra vez do parafuso número um.
E o Sonic ficou ali a ver, com os pés a mexerem-se sozinhos, sem perceber como é que alguém consegue recomeçar uma coisa do princípio sem se zangar.
Capítulo Três
O Aspirador do Dr. Eggman
Do outro lado da colina, no cimo de um monte pelado, havia uma fortaleza de ferro com uma chaminé a deitar fumo cor de mostarda.
Lá dentro vivia o Dr. Eggman.
O Dr. Eggman era um senhor redondo como um ovo, com um bigode cor de laranja tão comprido que lhe chegava às orelhas, óculos azuis e um casaco vermelho. Era muito, muito inteligente — o problema é que só usava a inteligência para coisas rabugentas.
E aquilo que ele mais não suportava no mundo inteiro era uma coisa só:
O Sonic ser mais rápido do que ele.
Por isso construiu uma máquina.
A máquina tinha um funil enorme à frente, como uma trombeta ao contrário, e chamava-se — o Dr. Eggman tinha passado três dias a escolher o nome — o Aspirador de Pressas.
Fazia uma coisa muito simples e muito má: apontava, disparava um raio, e a velocidade da coisa que apanhava ia-se embora. Ficava presa num frasco de vidro, a brilhar lá dentro como um vaga-lume zangado.
— Hoje — disse o Dr. Eggman, esfregando as mãos — vou tirar a pressa àquele ouriço. E amanhã a Colina Verde é minha, porque ninguém chega cá a tempo de a defender.
E riu-se aquela risada dele, que era assim: ho-ho-ho-hooo, com o bigode a saltar.
Capítulo Quatro
O Dia em que o Sonic Ficou Devagar
Aconteceu numa quinta-feira de manhã, a meio de uma descida.
O Sonic ia a descer a colina em bola, como ele gostava, a apanhar anéis pelo caminho — tlim, tlim, tlim — quando ouviu um assobio esquisito por cima da cabeça.
Fiuuu-PLOC.
E depois foi como se o mundo inteiro tivesse posto o pé em cima da capa dele.
O Sonic parou.
Não parou por querer. Parou porque os pés dele, de repente, andavam à velocidade dos pés de toda a gente.
Levantou-se. Tentou correr.
Não conseguiu.
Ou melhor: conseguiu andar. Depressinha, até. Mas depressinha não é depressa, e o Sonic sabia bem a diferença.
Tentou outra vez. E outra. Fez força até os espinhos ficarem em pé, o que nos ouriços é sinal de aflição a sério.
Nada.
Sentou-se na relva, no meio dos anéis espalhados, e ficou muito quieto — ele, que nunca na vida tinha estado quieto — a olhar para o loop gigante lá em cima.
E pela primeira vez o loop pareceu-lhe alto.
— Se eu não sou rápido — disse o Sonic baixinho, para ninguém — então eu sou o quê?
Capítulo Cinco
O Knuckles e a Pedra
Foi o Knuckles que o encontrou ali sentado.
O Knuckles era um equidna vermelho, com dois punhos enormes cheios de picos e um feitio igualmente enorme. Não era rápido nem era paciente. O Knuckles era forte, e teimoso que nem uma porta.
— Estás sentado — disse o Knuckles, desconfiado. — Tu nunca estás sentado.
— Perdi a minha velocidade.
— Perdeste onde?
— Se eu soubesse onde, já lá tinha ido.
— Pois. — O Knuckles coçou a cabeça. — Isso faz sentido.
E depois disse a coisa mais Knuckles do mundo:
— Anda daí. Preciso de tirar uma pedra do caminho do ribeiro.
A pedra era do tamanho de uma vaca. O Knuckles pôs-se atrás dela, cravou os pés na terra e empurrou. A pedra não se mexeu nem um bocadinho.
Empurrou outra vez. Nada.
— Queres ajuda? — perguntou o Sonic. E logo a seguir sentiu-se parvo, porque o que é que um ouriço lento podia fazer contra uma pedra daquelas.
— Claro que quero — disse o Knuckles. — Achas que te chamei porquê?
Puseram-se os dois atrás da pedra. Contaram até três. Empurraram.
Grrrrrr... rrrrrót.
A pedra rolou para o lado e a água do ribeiro voltou a correr, toda contente, com aquele barulho de água que parece que está a rir-se.
O Sonic olhou para as próprias mãos, admirado.
— Mas eu quase não fiz força nenhuma.
— Fizeste a que faltava — disse o Knuckles, e encolheu os ombros como quem diz que aquilo era óbvio desde o princípio.
Capítulo Seis
A Amy e o Caminho a Pé
A Amy apareceu ao fim da tarde, com o martelo dela ao ombro, e não fez perguntas nenhumas.
A Amy era uma ouriça cor-de-rosa, de vestido vermelho, e tinha um martelo gigante que ninguém sabia bem onde é que ela guardava.
— Vou a casa do Tails — disse ela. — Vens?
— Eu demoro imenso.
— Eu também. Vamos demorar juntos.
E foram.
Foram pelo trilho de cima, o que passa entre as flores altas, aquele que o Sonic tinha atravessado mil vezes sem nunca ter visto nada, porque a mil à hora as flores são só um borrão verde e cor-de-rosa.
Naquela tarde, a andar, o Sonic viu:
Um ninho com três passarinhos de boca aberta, tão perto do caminho que dava para lhes ouvir a fome.
Uma flor que abria e fechava conforme lhe batia o sol.
Um caracol a atravessar o trilho com toda a calma, como quem tem o dia inteiro (e tinha).
E, numa pedra à beira do caminho, um desenho meio apagado de um ouriço a correr, feito por alguma criança da colina, com um coração ao lado.
O Sonic parou à frente daquela pedra durante um bom bocado.
— Amy. Isto está aqui há quanto tempo?
— Desde sempre. Passas por aqui todos os dias.
Passava por cima. Nunca por dentro.
E foi a andar, com os pés lentos e as mãos nos bolsos, que ele percebeu uma coisa que era grande demais para a cabeça de um ouriço e mesmo assim entrou toda: que a colina era muito maior do que ele julgava, e que ele nunca tinha visto quase nada dela.
Capítulo Sete
A Fortaleza de Ferro
Foi o Tails que descobriu.
Andava a voar por cima do monte pelado, à procura de peças para o Tornado, quando viu a chaminé da fortaleza a deitar um fumo diferente — um fumo com faíscas douradas lá dentro.
— Sonic. A tua velocidade está ali. Vi-a a subir pela chaminé.
Foram os quatro nessa noite.
E o Sonic, que fazia sempre tudo sozinho porque sozinho era mais rápido, teve de fazer uma coisa muito estranha: ficar atrás.
Foi o Knuckles que arrombou o portão, com um murro só, daqueles que fazem cair pó do teto.
Foi a Amy que tratou dos robôs redondos que vieram a rolar pelo corredor, um por um, com o martelo — ping, pong, ping — e a cantarolar entre cada um.
Foi o Tails que percebeu o mapa, que estava todo às avessas, e que os levou pelo tubo de ventilação até à sala certa.
E o Sonic foi atrás. A pé. A dar sugestões que ninguém precisava.
Foi a coisa mais difícil que ele tinha feito na vida — mais difícil do que o loop, mais difícil do que a cascata.
Esperar pelos amigos.
Mas fez.
Capítulo Oito
A Sala dos Frascos
A sala era enorme e estava às escuras, mas não fazia falta luz nenhuma.
Porque as prateleiras iam do chão até ao teto, e em cada prateleira havia frascos, e dentro de cada frasco havia uma luzinha dourada a andar às voltas, à procura de saída.
Eram centenas.
O Tails leu as etiquetas em voz alta, uma a uma, e a voz dele foi ficando mais pequena:
— Pressa do ribeiro. Pressa do vento de leste. Pressa das andorinhas em setembro. Sonic... ele não te roubou só a ti.
Ao fundo, sozinho numa prateleira só dele, estava o maior frasco de todos. A luz lá dentro batia no vidro com tanta força que fazia o frasco tremer.
Dizia: PRESSA DO OURIÇO AZUL.
O Sonic foi a correr — bem, foi a andar depressinha — até àquele frasco. Pôs-lhe as duas mãos em cima. Era ali. Era só rodar a tampa e ele voltava a ser ele.
E então olhou para trás, para as centenas de frascos pequeninos a brilhar no escuro.
E ficou quieto.
Quieto a sério. Aquela coisa que ele não sabia fazer, e que naquela semana tinha aprendido a fazer, sem dar por isso, a andar por um trilho ao lado da Amy.
Depois voltou para trás.
E começou pelos pequeninos.
Abriu o frasco do ribeiro, e ouviu-se lá longe a água a rir outra vez. Abriu o do vento de leste, e as janelas todas bateram ao mesmo tempo. Abriu o das andorinhas, e passou uma seta preta pelo corredor com um chilreio contentíssimo.
Abriu-os todos. Um a um.
Como quem aperta dezoito parafusos.
Estava a chegar ao último quando as luzes se acenderam todas de repente e o Dr. Eggman apareceu à porta, de pijama às riscas, com o bigode todo torto de dormir.
— O QUE É QUE TU PENSAS QUE ESTÁS A FAZER?!
— A pôr as coisas no sítio — disse o Sonic.
E rodou a tampa do frasco grande.
FIIIIIIIIU-VUUUM!
A luz dourada saltou do frasco e entrou-lhe pelos pés acima como limonada gelada, e num piscar de olhos o Sonic estava outra vez em todo o lado ao mesmo tempo.
Deu três voltas à sala. Desapertou os parafusos todos do Aspirador de Pressas (com muito cuidado, um a um, que é como se faz). E o Dr. Eggman fugiu pela janela na sua naveta em forma de ovo, a gritar aquela coisa que ele grita sempre, que é eu volto! — e depois volta mesmo, mas isso é outra história.
Capítulo Nove
O Regresso a Pé
Lá fora estava a nascer o sol por trás da Colina Verde, e o céu tinha aquela cor de pêssego que só aparece a horas a que quase ninguém está acordado.
O Sonic podia ter voltado para casa em três segundos.
Três. Contados.
Olhou para o caminho comprido, todo a descer, com as palmeiras de um lado e o ribeiro do outro. Depois olhou para trás, para o Tails a bocejar, para o Knuckles a esfregar os punhos, para a Amy a arrastar o martelo pelo chão porque já não tinha força para o levantar.
E foi a pé.
Demoraram uma hora e meia. Foi a coisa mais lenta que o Sonic tinha feito em toda a vida.
Pelo caminho, mostrou-lhes o ninho dos três passarinhos. Mostrou-lhes a flor que abre e fecha. Mostrou-lhes o desenho na pedra, e o Knuckles disse que o desenho não estava parecido nenhum, e a Amy disse que estava parecidíssimo, e discutiram sobre isso até ao fundo da colina.
Quando chegaram, o Tails perguntou:
— Sonic. Se pudesses escolher outra vez, escolhias voltar a ser rápido?
E o Sonic pensou. Pensou a sério, que é uma coisa que também demora.
— Escolhia — disse. — Mas agora já sei uma coisa.
— O quê?
Ser rápido é bom.
Mas não é o que eu sou.
E, nessa tarde, quando os outros foram dormir a sesta, o Sonic subiu ao cimo do loop gigante — devagarinho, a pé, agarrado com as mãos, que é muito mais difícil — e ficou lá sentado a ver a colina inteira.
Ficou lá uma hora.
Quieto.
E gostou.
À noite, o Tails acabou os dezoito parafusos.
O Sonic esteve a ver todos, do número dez ao número dezoito, sem pegar na chave de fendas nem uma única vez.
E quando o último ficou apertado, os dois bateram as mãos no ar, e o Tornado ligou o motor à primeira, e fez um barulho tão bonito que até os anéis dourados que flutuavam no ar pareceram tilintar de contentes.
Fecha os olhos.
Fim
História de fã, escrita e ilustrada em casa.
O Sonic e os seus amigos pertencem à Sega. Isto não tem qualquer ligação oficial à Sega.